Entre o fluxo das marés e a repetição dos gestos de trabalho, Manu Gomez inscreve corpos que insistem em existir para além da lógica produtiva, corpos que, juntos, reconfiguram o horizonte.
No encontro entre memória, trabalho e imaginação, a artista Manu Gomez apresenta sua primeira exposição individual, À beira-mar, somos muitos, em cartaz no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro. Com curadoria de Jean Carlos Azuos, a mostra reúne um conjunto de pinturas inéditas que atravessam experiências pessoais e coletivas para pensar as dinâmicas do trabalho e da vida em comunidade.
Parte da série Sonhos dos Invisíveis, o núcleo da exposição se constrói a partir de imagens de pescadores e cardumes, frequentemente fundidos em composições de cores vibrantes e em constante movimento. Inspirada pelas vivências de seu pai com a pesca submarina em Arraial do Cabo, Manu Gomez transforma o mar em território simbólico onde subsistência, risco e memória se entrelaçam. Nesses cenários, o coletivo emerge como estratégia vital — tanto no comportamento dos peixes quanto nas formas de organização humana.

Ao tensionar as fronteiras entre corpo humano e animal, a artista propõe uma leitura crítica das estruturas que regem o trabalho contemporâneo.
“A ideia de quantidade vem junto com uma estratégia biológica: agrupar-se para parecer um animal maior do que se é. Ao unir humanos e peixes, proponho também uma reflexão sobre como o sistema nos reduz a commodities, a números — tanto peixes quanto humanos.” —Manu Gomez
A exposição ganha escala na instalação central, um grande painel formado por 24 telas que, juntas, compõem um mosaico. Mais do que uma imagem única, a obra se organiza como um “quebra-cabeça” em fluxo, no qual fragmentos se conectam e se deslocam continuamente.
“Aqui, os cardumes percorrem as telas como pensamento coletivo em movimento e, ao se repetirem de obra em obra, ondulam uma continuidade visual que a montagem acompanha, conduzindo o espectador por um fluxo que evoca a circulação da maré.” —Jean Carlos Azuos, curador
Esse movimento também se estende a outros elementos da mostra. Um carrinho de transporte — objeto ligado ao cotidiano de trabalho de seu pai e de seu avô — surge como suporte para uma das obras, deslocando a pintura da parede e incorporando à exposição a dimensão concreta do labor. A peça dialoga com a expressão popular “vender o peixe”, articulando memória familiar, economia e circulação de imagens. Em paralelo, a presença de latas em algumas pinturas introduz referências ao consumo e aos alimentos processados, ampliando o campo simbólico entre pesca, sobrevivência e mercado. Ao longo da mostra, cada figura se apresenta como vestígio e testemunho. Como aponta o curador:
“Nesse sentido, cada figura pode ser compreendida como arquivo de trabalho, superfície viva na qual a experiência se inscreve e permanece, evidenciando como o corpo, historicamente reduzido à força produtiva, resiste como memória e como sujeito.” —Jean Carlos Azuos, curador
A exposição, assim, constrói uma narrativa onde o visível e o invisível se entrelaçam, dando forma a uma coletividade que resiste, ainda que atravessada por forças econômicas e sociais.
“À beira-mar, somos muitos” afirma, por fim, uma multiplicidade que não se limita à imagem, mas se expande como experiência sensível e política. Entre o fluxo das marés e a repetição dos gestos de trabalho, a artista inscreve corpos que insistem em existir para além da lógica produtiva, corpos que, juntos, reconfiguram o horizonte.

Leia, com exclusividade o texto curatorial de Jean Carlos Azuos para À beira-mar, somos muitos, de Manu Gomez:
À Beira-Mar, Somos Muitos
Jean Carlos Azuos
Manu Gomez nos propõe uma travessia construída na pintura e prolongada no espaço expositivo, na qual as imagens se articulam como quem acompanha o movimento das marés, instaurando um ritmo que conduz poeticamente o percurso do espectador. Aos poucos, percebe-se que é uma memória íntima e persistente que sustenta essa arquitetura visual, até que se deixa entrever a figura do pai pescador e, antes dele, a presença silenciosa do avô, não como representação, mas como referência de trabalho e de transmissão oral que orientou o pai e a família; é o pai, contudo, quem povoa o imaginário com histórias sobre o mar, suas espécies e seus mistérios, orientando o compasso das imagens e das alegorias e ativando uma reflexão sobre herança, trabalho e continuidade que atravessa gerações.
Os homens que atravessam as telas carregam na própria carne a inscrição do labor, trazendo nos ombros o peso reiterado da rede, nos braços o gesto repetido até tornar-se musculatura e, nas mãos, a aspereza da água salgada e do peixe recém-retirado do mar, compondo uma anatomia marcada pela prática contínua e pelo tempo acumulado. Nesse sentido, cada figura pode ser compreendida como arquivo de trabalho, superfície viva na qual a experiência se inscreve e permanece, evidenciando como o corpo, historicamente reduzido à força produtiva, resiste como memória e como sujeito.
Toda essa construção nasce da convivência. A continuidade que atravessa gerações encontra, na filha, não a repetição do ofício, mas sua tradução em pintura. Ao acompanhar o cotidiano do pai, a artista transforma a experiência direta com o trabalho da pesca em linguagem pictórica, deslocando o gesto aprendido para o campo da imagem. A proximidade concreta com o mar e com os ciclos da pesca — vivida ao lado do pai — a conduziu, antes mesmo da pintura, ao estudo da biologia, como forma de compreender cientificamente aquilo que já conhecia pela experiência. O interesse pelos ecossistemas marinhos, pelas espécies e pelas dinâmicas de preservação antecede sua formação na Escola de Belas Artes da UFRJ e informa silenciosamente sua prática artística. Ao reorganizar a masculinidade a partir da proximidade afetiva, a artista permite que a força ali representada adquira densidade relacional, vinculada à responsabilidade do sustento, à constância do gesto e à transmissão intergeracional que molda corpos e expectativas, ao mesmo tempo em que interroga as frustrações e os limites impostos por um sistema que mede a vida pela produtividade.
O grande fundo vermelho nas pinturas de Manu Gomez substitui a paisagem marítima tradicional e desloca o mar para uma dimensão plástica, saturando a superfície e eliminando a distância entre figura e fundo, de modo que o trabalho se desenvolve dentro de uma atmosfera expansiva e contínua. O oceano deixa de ser horizonte naturalista e se condensa na cor, convertendo-se em superfície que envolve corpos e cardumes, ao passo que sustenta a própria lógica da imagem, fazendo da pintura um campo em que natureza, trabalho e economia se imbricam.
Nessa vibração cromática, o Atlântico comparece como memória profunda, trazendo consigo tanto a subsistência quanto o trauma da travessia forçada e da formação colonial. Atua como corrente subterrânea que atravessa a exposição e situa o labor contemporâneo em uma composição formada por camadas de tempo sobrepostas, nas quais as raízes da escravidão e do capitalismo ainda reverberam na organização do trabalho e na exploração dos recursos.
Em algum ponto dessa história, a expressão colônia de pescadores, que designa associações profissionais organizadas para regulamentar a atividade e garantir meios de subsistência, faz ressoar também a palavra colônia como vestígio de uma formação atlântica marcada por invasão e exploração. Entre organização do trabalho e herança histórica, o ofício árduo da pesca, reiterado diariamente, estabelece-se em um território no qual memória e sobrevivência partilham a mesma extensão, revelando como a lógica colonial se reinscreve nas dinâmicas contemporâneas de produção e exaustão.
Aqui, os cardumes percorrem as telas como pensamento coletivo em movimento e, ao se repetirem de obra em obra, ondulam uma continuidade visual que a montagem acompanha, conduzindo o espectador por um fluxo que evoca a circulação da maré. O olhar recolhe fragmentos, aproxima-se dos detalhes e recompõe o conjunto, experienciando a exposição como campo de deslocamento permanente, no qual o cardume se afirma também como metáfora da massa trabalhadora, corpos que buscam proteção, visibilidade e permanência diante de um sistema que tende a diluí-los na mercadoria.
Por outra margem, as presenças de malandros, pombagiras e exus ampliam a experiência ao coadunarem uma dimensão espiritual que envolve o trabalho e sussurra caminhos, configurando o destino como plano sensível em contínua consonância entre esforço, orientação e fé. Ao prolongarem, no presente, a deriva que atravessa a história atlântica e o cotidiano da pesca, essas forças tensionam também os limites de um progresso que avança sem considerar seus custos humanos e ambientais.
À Beira-Mar, Somos Muitos afirma uma multiplicidade que se manifesta nos corpos, nas alegorias e na própria organização estética e narrativa da mostra. A presença, até aqui murmurada, é feita de trabalho e desejo, de corpos que atravessam um tempo incontornável enquanto o horizonte se abre em infinitude. Nos traços que se repetem e se desdobram revelam-se presenças que se movem em cardume, seguindo fluxos que orientam o percurso do olhar e lembram que a exploração que transforma o peixe em mercadoria é a mesma que historicamente reduziu pessoas à condição de força produtiva. Na firme delicadeza desses gestos reconhece-se a força de continuar, como o curso das águas que retorna e redesenha o horizonte sem jamais esgotá-lo, convocando uma reflexão sobre os limites do sistema, a exaustão que ele produz e a urgência de imaginar outras formas de convivência e de trabalho.

Serviço: Exposição À beira-mar, somos muitos, de Manu Gomez, com curadoria de Jean Carlos Azuos no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro. Abertura: 25 de março de 2026, das 16h às 20h. Visitação: até 9 de maio de 2026, de terça a sábado, das 12h às 19h.